Quinta-feira, 14 de Agosto de 2008

Clarão


Tão simples.
Tais movimentos.

Com os braços esticados, pede benção ao vento;
Com o corpo deitado pede arrego ao tempo;
Com as pernas cansadas pede sossego...

... sossego ...

Com o corpo curvado pede à gravidade o desapego
Com as mãos umedecidas pede ao calor brisa litoral
Com os pés descalços pede o descarrego
Com as mãos trêmulas pede calor matinal.

E com os olhos calmos, movido às marés
pede um pouco de calma, uma água clara
por onde trilhem seus pés...

Sábado, 24 de Maio de 2008

Recolhido.

Não houve tempo pra gastar, nem pra dizer o que tantas vezes ensaiei .
Surgiu... como nunca esperaria que surgisse.
E esteve com seus olhos claros e sua voz mansa.
Sorriu... um sorriso quente e alvo que ela procurou gravar, pra não esquecer outra vez de como era lindo.

Ele disse da sua vida, das mudanças, do futuro.
Eu disse de mim, das minhas bobagens e dos meus planos.
E o desejo escondido, recuado pelo desprezo do tempo, se mostrou tão vivo.

Era, outrora, o amor idealizado e descrito nos diários dos meus 17.
Era, agora, a força do momento, o desejo da espera e a deliciosa irresponsabilidade dos adolescentes.
E limpo, sem desprezo, sem culpa nem dor.
Foi o beijo mais longo. A loucura mais sã. A irresponsabilidade mais certa. A traição mais leal.

E eu me senti outra vez a menina - que com o trato do tempo perdeu os pudores e os medos - que contraía involutariamente os músculos das pernas no momento em que os lábios dele tocaram a sua pele fresca e nunca antes tocada. A menina que se pega sorrindo sozinha quando lembra do olhar que ele lhe deu.

Lembrei-me de como é ser menina...
Lembrei-me de como é flutuar.

Quarta-feira, 14 de Maio de 2008

JoZéS... infinitos homens.




Pois quando meu chá principia a esfriar lembro-me das paixões de verão; dos amores verdadeiros de anos de duração; dos desentendimentos que repentinamente acabam com os sonhos construídos a par; dos romancezinhos de praça de igreja em minha infância, das cartas recebidas, também das nunca enviadas, das rosas que ganhei - hoje murchas esquecidas dentro dum livro velho; dos amores febris – de puro toque - ; dos amores completos... com mãos entrelaçadas pra andar nas gramas, com coração pulsando num beijo dado no chafariz, as fotografias, o cheiro que deixam sobre as roupas minhas e o sopro que eu lanço na nuca.

Quinta-feira, 8 de Maio de 2008

Difuso...

Não sabe se são duas, três ou quatro da manhã.
Não se lembra como é dormir

Desafoga da gaveta as fotos velhas, os cartões e tudo quanto for com desejo de encontrar sentido pras coisas vãs.
Nem suas velhas fitas de cabelo, nem seu cartão de maternidade lhe fazem lembrar.

A imagem que reflete o espelho não corresponde ao que desejou ser.
Seus cabelos cheiram à cinza, sua boca cheira à maçã do último jantar.
E onde ela está?

No centro do breu, no meio do escândalo, na multidão.
No sermão do padre ou na descrição de Drumonnd?
No riso abobalhado ou na lágrima entoada?
Onde mora a moça?
No céu ou na fossa?

Relâmpago que aparece pra acenar que não está.
Carrega as dúvidas como carrega a solidão.

Enquanto o sono não vem. Acendo o último cigarro da mesa. Procuro na parede nua a resposta pra sair desse refrão...

Que amanhã acordo zonza, norteada de alguns acordes.
Abro os olhos pra enxergar clarões.
Quando chega outra vez a noite
Durmo acordada procurando dar espaço ao ditado mais fácil, que reitera: “por hoje não”.


07/05 – 20:51

Quarta-feira, 9 de Abril de 2008

Eu quero estar na página do aluga-se
Desse jornal que você lê.

Então... só me resta esperar
Que o entregador acerte a casa verde
E na varanda você deve estar
Que a caneta esteja na mesinha do centro,
ao lado da rede que, mais tarde, iremos cochilar.
E um cochicho doce,
Solvido baixo,
Riscando os pés - meus nos seus.
Um riso bobo, uma alegria só.
Na rede: amora, morango, amor.

Chegada a hora...
É só esperar
Que esse papel seco e cinza
Tome vibração de uma luz de marca-texto
Com a qual você irá me pintar.

Sexta-feira, 4 de Abril de 2008

O Tro(preço)


Era, de longe, a maior mentira em que pus fé
Pensar que amar é como querer.
Não tardava pra eu dizer, solver o doce em teu abrigo
Cantar o penar que era, chorar através duns livros

Calmei. Pausei pontuando com vírgulas e entrelinhas.
Queria era teu cheiro no meu vestido de algodão
Ou a marca do seu sapato assolado em meu quintal

Ainda bem... fui eu quem quis.
Agora a porta range a agonia
De te ver pelo buraco da fechadura
Plasmado do teu sorrir.

Se foi
Me Fugiu
Sem se deixar ferir.

Quinta-feira, 13 de Março de 2008

Empilhar

Empilho os Cds, os livros, as pratarias, a maleta de mão.
Empilho as panelas, os garfos, os palitos, os copos.
Empilho os cobertores, os travesseiros, as fronhas.
Empilho o sabonete, o creme-dental, a escova e a toalha de papel.
Empilho as cartas, as fotos, os poemas que fez.
Empilho a verdade. Junto a ela a mentira que você me fez acreditar.
Empilho a fé que tinha, os sorrisos que dávamos na varanda.
Empilho suas camisas brancas, seu sapato verniz, as meias que deixou no varal.
Empilho logo a TV por sobre a cadeira do quintal.
Eu afundo nas pilhas o perfume que você largou na minha estante.
E risco a chama do isqueiro com o qual fumou.

Por que quando te descobri fiz questão de me espalhar.
De espalhar seu cheiro, seu gosto, suas roupas, seus gestos e seus objetos pela casa.
Porque era a ocasião em que me dizia querer.
Tanto estar.
Que esteve em todo lugar.

Enquanto há tempo.
Pra largar,
Aposentar os usos que você fez de mim.
Enquanto há tempo pra pensar.
Na mulher que agora toma seu tato em meu lugar.

Empilho...
Empilho.

Terça-feira, 26 de Fevereiro de 2008

As cartas



“As tintas que usei
Os papéis que gastei
O dicionário que esbanjei
Pra lhe dizer de flores
De sons de violões
Do desejo que tenho
De te ter recostada sobre meu ombro
Num dia de sol
No banco em frente às nossas casas.
Acabou-se tudo.
E tão melhor seria
se fosse eu a lhe bater na porta antes de ontem às seis
e não ter que lhe dizer te amo
pra ganhar o beijo que ele ganhou
o sorriso que pintou seu rosto
o abraço que perpetuou-se
a troco de uma carta que ele nunca mandou”


Mudou.
Muda,
Deixei tudo outra vez em paz.
Tudo.
Tonta,
Restou o cheiro doce
De um rapaz.

Quinta-feira, 14 de Fevereiro de 2008

Água Molhada


Nos dias de chuva é sempre fácil arranjar algo para se fazer.
A primeira impressão que temos é exatamente o contrário. Chuva resulta em praça sem sol, roupas molhadas e, consequentemente, na impossibilidade de brincar do lado de fora.
Mas quando criança eu rezava para que logo viessem as chuvas de verão. São aquelas que chegam sem dar aviso: de repente chove e de repente acaba. Eu corria sempre pro quarto onde dormia a Nice – a moça que trabalhava em casa – pra pegar as cartas de baralho, os jogos de ludo e dama ou então apanhava do lado do telefone um almaço de folhas e umas canetas pra brincar de “stop”.
Tudo bem que pras crianças da minha idade era mais gostoso jogar Mario Bross ou brincar de paciência no computador. Mas para mim era diferente. Não porque não gostasse de vídeo-games nem de tecnologias, mas simplesmente porque nunca as tive dentro de casa. Na época, claro, sonhava com vídeo-game, mas hoje agradeço à minha mãe e apenas a recrimino por ainda ter comprado uma televisão.
No ludo eu era a pior. Sabe-se lá que azar tem uma menina de 12 anos que sempre perdia no ludo pra sua irmã do meio – de 7 anos. Nunca conseguia ganhar. Mas no stop também não havia para mais ninguém. Sabia inúmeros nomes de carros com a letra “C” e ainda poderia preencher quase todas as colunas com a letras mais difíceis: “H” ou “Z”. Como era bom o sabor de ganhar. A euforia de receber R$1,00 de balas de menta por ter sido a vencedora por conta da aposta do jogo.
Acabava a chuva e animava-me ver o arco-íris. O prazer da vez era sair de casa e correr na rua pulando poças de lama para depois ser surpreendida por minha mãe no quintal tomando banho de mangueira e espalhando água em todo canto da casa.
Ah! Ora! hoje penso nos tapas que levava. Mas que mal faz água? É só água. E água não seca?